Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 108
Capítulo 108
Ashley, ainda mantendo o tom de quem interrogava Dane, questionou de forma fria:
— Seja como for, namorar o Grayson é uma escolha sua, certo? Não porque ele te forçou ou por causa de algum incidente desagradável.
— …É uma escolha minha.
Era verdade que havia sido uma decisão própria. Diante da confirmação de Dane com o semblante fechado, Ashley prosseguiu:
— Ele estava muito confiante dizendo que você o ensinou a ter emoções. Você concorda com isso?
— Com o quê?
Ashley cerrou os olhos diante da pergunta de Dane, que trazia a testa franzida.
— Você acha que o Grayson realmente sente emoções?
A voz do homem transbordava descrença, como se estivesse convicto de que algo assim jamais poderia acontecer com o seu filho. Ao presenciar aquela reação, uma onda de desafio surgiu no peito de Dane.
— Com certeza. Não sei por que o senhor pensaria o contrário. Bom, dizem por aí que os pais são sempre os últimos a conhecer os próprios filhos.
As últimas palavras foram nitidamente sarcásticas. Um leve vinco se formou na testa de Ashley. Ele visivelmente não havia gostado do comentário, mas, logicamente, Dane não dava a mínima. Ele passara a vida inteira sem se importar se os outros gostavam dele ou não. Ele até comprava petiscos ou fazia sons carinhosos para conquistar animais, mas jamais faria isso por pessoas.
Olhando de cima para o ômega cujos olhos azuis brilhantes o encaravam sem vacilar, Ashley abriu a boca sem pressa:
— É mesmo? Você parece bem seguro de que sabe muito sobre o meu filho.
— Não sei se sei tanto quanto o senhor, mas acho que conheço aspectos dele que o senhor desconhece.
Ashley Miller estreitou as pupilas. Estava claro o seu desagrado, porém, contra as expectativas, os feromônios que flutuavam pelo ar permaneceram estáveis. Dane ficou surpreso internamente por ele não ter explodido. Pensou que, ao cruzar com alguém que ousasse confrontá-lo de forma tão direta, o homem ficaria furioso por instinto.
Seria esse homem inesperadamente controlado, ou Dane simplesmente não valia o esforço de uma briga?
— Era só isso que queria dizer?
Ao som da voz de Ashley, Dane retornou à realidade. O homem retirou uma cigarreira do bolso do paletó e escolheu um charuto.
— É uma sorte que alguém que conhece meu filho tão bem esteja ao lado dele. Só não sei quanto tempo isso vai durar.
Dane observou em silêncio enquanto ele cortava a ponta do charuto e o acendia.
— Bom, é sempre bom ter esperança.
Contradizendo suas próprias palavras, ele repuxou o canto da boca em um sorriso cínico. Dane não pôde deixar de franzir o cenho diante daquela feição que parecia ridicularizá-lo. Teve a nítida sensação de ter escutado os pensamentos ocultos de Ashley naquele instante.
Provavelmente aquilo não significava grande coisa.
— Tenho uma pergunta.
As palavras saltaram de sua boca antes que pudesse refletir. Sustentando o olhar ainda gélido de Ashley, Dane questionou:
— O senhor já abusou do Grayson?
Ashley, que afastava o charuto dos lábios, congelou o movimento. Em vez de se mostrar perturbado ou pedir desculpas pela audácia, Dane aguardou a reação com as sobrancelhas unidas, como se o intimasse a dizer o que tinha para dizer.
Sob uma tensão cortante que se instalou entre ambos, Ashley abaixou a mão lentamente. Após um instante de silêncio, com seu olhar desprovido de qualquer emoção fixado em Dane, ele moveu os lábios sem pressa:
— O Grayson disse isso? Que eu abusei dele?
Sua voz grave ecoou ainda mais baixa, a ponto de soar arrepiante, mas Dane não se intimidou e rebateu:
— Não, ele sequer sabia se o que sofreu era um abuso.
— E então?
Ashley indagou, levando o charuto de volta à boca.
— Por que você acha que eu abusei dele?
— Eu vi e ouvi por conta própria — Dane respondeu sem hesitação. — O Grayson disse que já foi trancado em um porão. Mas ele nem sabia que isso era um abuso.
Só então Ashley pareceu compreender a situação por completo e soltou uma risada curta, como se estivesse estupefato.
— E você acredita nele?
— Diga-me o senhor mesmo, isso realmente aconteceu? — Dane insistiu de forma persistente. Ele precisava sanar aquela dúvida. Aguardou a resposta de Ashley sentindo uma pressão esquisita no ambiente. No entanto, o homem apenas franziu a testa em sinal de irritação e devolveu a pergunta:
— Você está suspeitando que eu batia nele?
— Incluindo isso.
— …Ha.
Ashley soltou um suspiro de pura descrença. Pela primeira vez, sua expressão imperturbável vacilou. Ele abriu a boca em um visível estado de perplexidade e olhou para o nada, mas, ao voltar os olhos para Dane, sua fisionomia transbordava desprezo.
— Se eu tivesse batido nos meus filhos, já estaria divorciado. Você acha que eu faria algo que fizesse o Koi me odiar?
— Então o senhor não batia nele?
— Eu não batia nele, e também nunca abusei dele!
Por fim, o tom de voz do homem se elevou. Ashley parecia genuinamente frustrado; respirou fundo e tragou a fumaça do charuto repetidas vezes. Passado algum tempo, ele pareceu recuperar a compostura e, encarando Dane com uma carranca, acrescentou:
— Eu estava apenas ensinando os meninos a se protegerem. Sim, o método pode ter sido excessivo. Mas o que mais eu poderia fazer? Não importava o quão gentilmente eu falasse ou o quão docemente eu os instruísse, eles simplesmente não compreendiam! O Grayson era uma bomba-relógio desde o momento em que nasceu, tudo por culpa desta maldita característica!
Ashley, que parecia despejar as palavras com cada vez mais veemência, calou-se abruptamente. O silêncio desabou sobre o salão. No meio da quietude, ele declarou com a voz contida:
— Striker, nós apenas somos gratos por ele não causar um mal irreversível aos outros.
Ele deu mais uma tragada no charuto e indagou:
— E o que ele fez naquele porão? Aprontou alguma palhaçada para ajudar alguém?
Dane não conseguiu responder de imediato. Ashley soltou um riso abafado diante da hesitação do rapaz, como se aquela fosse exatamente a reação que já previa.
— Imaginei.
Diante do tom cínico, Dane viu-se na obrigação de explicar resumidamente o que havia ocorrido:
— Tinha uma criança trancada no porão, e o Grayson escolheu ser confinado junto com ela para ajudar. Ele disse que era melhor ter alguém por perto do que ficar sozinho na escuridão. Disse que só queria ajudar a criança.
Ashley tragou a fumaça sem proferir uma única palavra. Dane notou de imediato aquela reação indiferente.
— O senhor não parece surpreso.
Ashley soltou uma risada curta. Obviamente, não parecia nem um pouco contente.
— Você acha que eu só passei por isso uma ou duas vezes?
Após demonstrar essa reação irritadiça, ele fumou o charuto em silêncio por um tempo. Decorridos alguns minutos, Ashley tomou a palavra:
— Você me perguntou se eu abusei do Grayson? Sim, a disciplina era severa. Sabe o porquê?
Ashley trouxe a resposta sem esperar por uma indagação:
— Ele quase matou uma pessoa antes dos dez anos de idade, duas vezes. Na primeira vez, ele fez isso sozinho, com as próprias mãos.
Diante das palavras imprevistas, Dane congelou. Ao notar o estado do rapaz, Ashley disparou:
— Quem você acha que era o alvo?
— Foi o Koi.
— Ele tentou assassinar a própria família.
Ashley continuou a falar:
— O Koi não tem olfato. Ele também mal consegue sentir o gosto de qualquer coisa. O Grayson ficou curioso para saber se aquilo era verdade. E sabe o que ele fez? Preparou um bolo e colocou detergente na receita. O Koi quase morreu depois de comer.
Sua voz, que antes soava extremamente pragmática, começou a tremer de forma gradual. Em seguida, Ashley cuspiu as palavras com crueza:
— Se eu tivesse chegado um minuto mais tarde, teria encontrado o cadáver do Koi.
A mão de Ashley que sustentava o charuto tremia de leve. Enquanto Dane observava a cena, o homem continuou o relato:
— Havia três dos meus filhos lá, e nenhum deles ligou para a ambulância. Eles apenas observavam, fascinados, enquanto o Koi morria.
Ele silenciou-se por um momento, como se tentasse reprimir as emoções. Apenas tragou a fumaça do charuto, puxando-a até o fundo dos pulmões. Passado algum tempo, resgatou a memória utilizando o mesmo tom baixo de antes:
— O Grayson foi severamente punido, obviamente. E o que você acha que aquela criança, após compreender que não deveria matar pessoas, fez em seguida?
Naturalmente, Dane não conseguia sequer imaginar. Ashley esboçou um sorriso cínico para ele:
— Ele tentou fazer com que outra pessoa o matasse.
Os olhos azuis de Dane vacilaram intensamente.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello