Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 107
Capítulo 107
O silêncio retornou. Desta vez, durou ainda mais. Ashley, que observava a reação do filho em silêncio há algum tempo, recostou-se devagar na cadeira, como se já esperasse por aquilo.
— Se você não tem certeza, é o mesmo que uma mentira.
Grayson, confrontado pelo tom gélido de sempre, voltou a erguer os cantos da boca e rebateu:
— O que eu sinto é, com certeza, amor. É diferente de tudo o que já senti antes.
— É mesmo?
Ashley soltou um riso nasal e questionou:
— Você também sabe quais são os sentimentos de Dane Striker?
Os olhos de Grayson se moveram pela primeira vez. Suas pupilas, que se desviaram de leve para o lado, estagnaram ali por um instante antes de retornar à posição original.
— Provavelmente?
Ashley levantou-se da cadeira, dando a conversa por encerrada. Ele ordenou ao filho, que fazia menção de acompanhá-lo, que ficasse:
— Você fica aqui. Não saia até que eu ordene.
— Sim.
Grayson sentou-se de volta na cadeira com obediência. Após confirmar a submissão, Ashley deixou a sala de visitas. Do lado de fora, um funcionário montava guarda junto à porta.
— Não deixe o Grayson sair.
— Sim, senhor. Compreendido.
Diante da ordem de Ashley, o funcionário respondeu prontamente e barrou a porta com o próprio corpo. Só então Ashley moveu os pés e caminhou pelo corredor.
Toc, toc. Ao som das batidas repentinas, Dane e Koi viraram a cabeça ao mesmo tempo. A porta se abriu de leve, revelando Ashley em seguida.
— Ash! …Onde está o Grayson?
Koi, que havia se levantado para recebê-lo, olhou por trás dele e perguntou. Ashley respondeu com a voz plana:
— Mandei ele ficar na sala de visitas. Preciso falar uma coisa rápido.
— Falar uma coisa?
Enquanto Koi tombava a cabeça para o lado, confuso, Ashley transferiu o olhar para Dane.
— Dane Striker, podemos conversar um instante?
Dane hesitou diante daquele tom cortante. Por que esse homem estava falando com ele do nada? Koi parecia ter o mesmo questionamento. Ashley, gesticulando com os dedos para que Dane o acompanhasse para fora, avisou a Koi, que ensaiava segui-los:
— Você espera aqui, não saia.
— Ah…
Koi olhou de Dane para Ashley, visivelmente desnorteado, mas logo se sentou de volta na cadeira com uma expressão resignada. Dane sentiu um arrepio estranho com aquela atmosfera, que de certa forma parecia familiar.
Quando saíram, havia um funcionário posicionado em frente à porta. À medida que Dane seguia os passos de Ashley, o homem bloqueou imediatamente o acesso ao cômodo de onde tinham acabado de sair. Como se não fosse permitir a entrada ou a saída de ninguém. Dane se perguntou se ele estava mantendo Koi trancado ou tentando evitar que alguém os interrompesse, quando de repente se recordou de algo que havia esquecido.
“Tem um cativeiro que meu pai construiu aqui perto.”
“Ele devia estar tentando prender o papai.”
Dane sentiu um incômodo peculiar ao constatar que o homem que erguera o cativeiro para confinar o próprio parceiro era ninguém menos que Ashley Miller, que caminhava bem à sua frente. E também pelo fato de que esse parceiro era Koi, com quem ele conversava até poucos instantes atrás.
“Sinto que me envolvi com uma família completamente absurda…”
Bem no momento em que alimentava esse pensamento desagradável, Ashley abriu a porta de um dos aposentos. Ele acenou de leve com a cabeça, indicando para que entrasse, e deu o primeiro passo para o interior. Dane não teve outra escolha senão mover-se como ordenado, mesmo contra a vontade.
Clique. Após fechar a porta atrás de si, Dane viu-se a sós com Ashley Miller em um salão desolado e desprovido de qualquer mobília.
De repente, um aroma adocicado atingiu suas narinas. Era uma fragrância conhecida, mas Dane percebeu que ela provinha de uma fonte diferente de todas as que havia sentido até então.
Aquele era o cheiro do feromônio de Ashley Miller. Assim como outros alfas dominantes, esse homem exalava sua essência de forma natural pelo ambiente. Se houvesse qualquer ômega por perto, este poderia entrar imediatamente no cio, mas aquele homem jamais perderia tempo pensando em demonstrar esse tipo de consideração.
Dane ficou ainda mais irritado porque ele próprio não era imune àquilo. Por sorte, sua característica era de ômega dominante, o que lhe conferia uma resistência muito maior. Ashley, parado a uma certa distância de Dane, que trazia o cenho franzido, tomou a palavra:
— Dane Striker. A razão pela qual o chamei aqui é que tenho algo que desejo perguntar.
— Vá em frente — disse Dane, com seu habitual desinteresse.
Ashley franziu as sobrancelhas, demonstrando desagrado com a reação, mas preferiu não pontuar nada. Afinal, não era um relacionamento que duraria muito tempo, então não havia motivo para se desgastar com detalhes insignificantes. Havia algo muito mais importante em pauta.
— O Grayson me disse que está namorando você. Você também consentiu com isso?
Dane estacou por um momento. Ele não fazia a menor ideia do que Ashley pretendia tratar, mas sentiu que era algo totalmente imprevisto. Coçando a nuca, Dane confessou a verdade:
— Eu posso dizer que consenti…
Após pronunciar as palavras, uma sensação de desconforto o invadiu por algum motivo. Sob o olhar persistente e esmagador de Ashley, Dane emendou como se estivesse se justificando:
— Houve uma situação inevitável. Não foi porque eu quis…
Enquanto falava, Dane notou algo bizarro. A fisionomia de Ashley havia mudado de forma sutil. Por que ele o encarava com aqueles olhos? No meio de sua dúvida, Ashley disparou abruptamente:
— Aquele desgraçado estuprou você?
Dane travou mais uma vez com a pergunta repentina.
— Como é?
Ao encará-lo com os olhos arregalados, Ashley, para sua surpresa, contorceu as feições e soltou um suspiro profundo. Trazia uma expressão que parecia dizer: “Ele finalmente fez essa merda”.
— E então, você vai processá-lo?
— Como disse? — Dane indagou novamente diante do questionamento que soava exausto. Ashley continuou sem delongas:
— Diga-me o que você quer, eu farei qualquer coisa. E, naturalmente, darei a ele a punição cabível.
Ashley Miller falava como se estivesse disposto a abrir mão de toda a sua fortuna. Por um milésimo de segundo, os artigos de luxo caríssimos para gatos que ele sequer conseguia cogitar colocar no carrinho de compras piscaram diante dos olhos de Dane, mas ele lutou para resistir à tentação.
— …Não foi o Miller quem fez isso, cof, eu… fui eu quem fiz.
Maldito cio, maldito período de rut!
Dane, sentindo o rosto arder em brasa, confessou o ato, fazendo um esforço tremendo para desviar o olhar.
— Eu… eu ataquei o Miller.
Um silêncio constrangedor se instalou entre os dois. Pela primeira vez na vida, Dane desejou sumir dali e encontrar um lugar para se esconder. Ashley permaneceu mudo por um tempo, impenetrável em seus pensamentos. Apenas fitou Dane fixamente e, por fim, abriu a boca sem pressa:
— Você atacou ele?
Dane não encontrou forças para responder em voz alta e apenas assentiu com a cabeça, de forma quase imperceptível. Ashley franziu a testa e inclinou o rosto para o lado.
— Por quê?
Era uma reação que ele parecia não conseguir decifrar. E com razão. Dane mordeu o lábio inferior e finalmente abriu o jogo:
— Eu estava no cio…
— Ah…
Só então Ashley pareceu compreender a situação. De fato, se não fosse por esse motivo, Dane jamais cogitaria ir para a cama com Grayson em sã consciência.
Ashley observou Dane e refletiu. Ele era um ômega, afinal. Não era algo que esperava, mas considerando o caso de Joshua Bailey, o parceiro de Chase, não era uma realidade incompreensível.
Logo, Ashley afastou os devaneios e retomou o foco ao problema imediato.
— E então, aquele infeliz está dizendo que vai processar você?
Mais uma vez, Ashley trouxe à tona uma pergunta totalmente fora da curva. Dane ficou tão abismado que se viu obrigado a encarar o rosto dele de novo.
— Como? Não, ele não disse nada desse tipo…
— Então qual é o problema?
Era Dane quem estava completamente desorientado ali. Ashley, demonstrando perplexidade mais uma vez com a hesitação do rapaz, interpelou:
— Se o Grayson não tem nenhuma reclamação sobre o ocorrido, então não há nada que eu possa fazer, certo?
Dane perdeu a voz, limitando-se a encarar a face de Ashley com os olhos vazios.
“O que há de errado com essa família…?”
Ele acreditava já ter visto de tudo um pouco por não ter tido uma vida fácil até ali, mas jamais imaginara passar por uma situação daquelas. Será que ele havia passado tempo demais lidando com a escória da sociedade? Era assim que funcionava a vida dos ricos?
Um ômega ataca o filho dele e a reação do pai é essa?
Dane não conseguia processar a lógica e permaneceu estático. Seria decorrente de terem crescido em realidades totalmente distintas? Ainda assim, aquilo passava longe de ser uma reação normal.
De repente, uma memória esquecida emergiu em sua mente. Grayson havia mencionado que já fora trancado em um cativeiro. E ele sequer tinha consciência de que aquilo se tratava de uma punição.
A cena daquele homem confinando o jovem Grayson em um porão escuro e batendo a porta se desenhou de forma nítida e vívida diante de seus olhos. Naquele instante, Dane sentiu sua mente congelar por completo.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello