Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 109
Capítulo 109
O silêncio retornou. Ashley continuou com a voz totalmente desprovida de emoção.
— Um amigo dele tinha um irmão mais novo e parecia não gostar do bebê. Quando me contaram o que o Grayson disse a esse amigo…
— Se livre dele — Grayson sussurrou para o amigo. — Se você não gosta dele, apenas se livre dele.
— E então ele explicou o método que havia lido em um livro. Disse que era fácil por ser apenas um bebê. O amigo escutou e fez exatamente o que ele sugeriu. Pressionou um travesseiro contra o rosto da criança…
Dane, involuntariamente, espremeu os olhos. Quando voltou a erguer as pálpebras devagar, encontrou o olhar árido de Ashley fixo nele.
— Por sorte, os pais descobriram antes que o pior acontecesse e o bebê foi salvo.
— Foi o Grayson, eu só fiz o que o Grayson me mandou fazer…
— Quando o questionei sobre o motivo de ter dito aquilo ao amigo, meu filho me respondeu o seguinte.
Sem conseguir ocultar o amargor, ele murmurou em tom de autodepreciação:
— “Eu só estava tentando ajudar, papai.”
Dane o observava em silêncio. Como esperado, Ashley indagou sem alterar a expressão:
— Compreende agora por que tranquei aquela criança no porão?
Não havia qualquer vestígio de arrependimento nele.
— Existe apenas uma coisa que nunca muda no Grayson: “Eu só estava tentando ajudar”. Ele machuca o irmão caçula o tempo todo enquanto brinca com ele, mas jura que só queria ajudar. Você também já passou por isso, não passou? Sabe o quão perigoso ele se torna quando cismou em ajudar os outros.
Dane não tinha argumentos para rebater aquilo. Afinal, testemunhara a situação na pele. Não apenas o incidente no porão, mas ele também se lembrava com clareza do quão absurda havia sido a conduta de Grayson quando foram resgatar uma pessoa que tentava o suicídio recentemente.
“Você tem que deixá-los fazer o que querem fazer.”
Será que Grayson achava que estava ajudando Dane naquela ocasião também?
Sentindo uma dor de cabeça despontar, Dane tentou uma última contestação:
— Então o senhor deveria buscar o acompanhamento de um profissional…
— Você acha que eu já não tentei isso?
Dane viu-se obrigado a fechar a boca mais uma vez. Ashley Miller bradava com todo o seu corpo que havia esgotado todas as alternativas possíveis.
Mas o resultado foi…
Ashley finalmente levou uma das mãos à testa. E resgatou a pior de suas memórias:
— Eu o instruí que ele precisava liberar seus feromônios de qualquer maneira, e ele tentou fazer *aquilo* com o próprio irmão.
Ashley mordeu o lábio inferior, como se sentisse uma dor física. E cuspiu as palavras com crueza por entre os dentes cerrados:
— Ele tentou enxertar o Chase em um cachorro.
Dane estacou. Era uma ideia impossível de se conceber de forma racional, mas Grayson a levara adiante. O que teriam pensado os pais que presenciaram aquilo diante de seus olhos? Ashley trouxe a resposta de imediato:
— Você consegue conceber algo assim? Eu deveria apenas passar a mão na cabeça desse garoto e paparicá-lo, dizendo que ele nasceu desse jeito e não tem culpa? O Chase quase cortou relações com a família depois desse episódio. Faz pouquíssimo tempo que voltamos a receber notícias dele por telefone.
Incapaz de conter as emoções, ele esmagou o charuto que mantinha entre os dedos. O tabaco em brasa extinguiu-se contra a palma de sua mão, liberando uma fumaça esbranquiçada. Um leve odor de carne queimada subiu pelo ar. Ele encarou Dane com um olhar feroz, trincando os dentes:
— Eu não tive outra escolha senão ensiná-lo o que podia e o que não podia fazer, mesmo que para isso precisasse recorrer a métodos físicos. Obviamente, a maioria das coisas se enquadrava no que ele não podia fazer. Eu fiz o meu melhor!
Os olhos de Ashley estavam injetados de sangue. Após fulminar Dane com o olhar por alguns instantes, desviou a atenção e jogou os cabelos para trás com a mão livre. De repente, ele parecia terrivelmente estenuado.
— O fato de meus filhos terem herdado a minha característica é uma punição para mim também.
Ashley suspirou profundamente, como se estivesse exausto.
— O motivo de o Grayson continuar vivo hoje, sem ter assassinado ninguém ou ter sido morto, é graças ao meu treinamento. Existem apenas duas coisas que exijo dos meus filhos: que não matem ninguém e acabem na cadeia, e que liberem seus feromônios no período correto para não destruírem as próprias mentes. Assim como eu fiz!
Ele continuava a alertar com uma postura resoluta, como se não guardasse remorso algum.
— Não se deixe ludibriar por aquele garoto. O Grayson é um mestre em mentir. Ele tentará enganar até a mim se tiver a oportunidade.
E Ashley Miller acrescentou uma última recomendação:
— Se você vacilar, vai acabar morto também.
Dane permaneceu sem fala diante de tudo o que ouviu.
— Foi realmente maravilhoso ver você hoje, Dane.
Koi, que havia caminhado até a porta principal acompanhado de Grayson, despediu-se com a voz animada e o envolveu em um abraço apertado. Koi, que hesitou por um instante como se estivesse melancólico e logo em seguida afastou o corpo, olhou para cima e pediu a Dane:
— Por favor, cuide bem do Grayson.
Koi então se direcionou a Grayson, que estava logo ao lado. Após presenteá-lo com outro abraço caloroso, ergueu os olhos para o filho. Até mesmo Dane, que assistia à cena de relance, conseguia identificar que aquele era um olhar transbordando amor. Em contrapartida, Ashley, posicionado a uma certa distância, limitou-se a deter sua atenção uma única vez sobre Dane e outra sobre Grayson.
— Tchau, papai. Até mais, pai.
Grayson acenou para os dois enquanto eles entravam no veículo. Assim que Koi pôs a cabeça para fora da janela aberta e agitou os braços com entusiasmo, o automóvel deu a partida e logo sumiu de vista no horizonte.
Observando os rastros do veículo que se distanciava, Dane finalmente soltou todo o ar que vinha retendo nos pulmões. De repente, uma estafa avassaladora caiu sobre seus ombros. Ele havia escutado histórias demais por um único dia. Jamais desejara se aprofundar tanto nas intimidades de uma família alheia.
“Como as coisas chegaram a esse ponto?”
Sentiu uma ponta de desespero, mas já era tarde demais. Dane tinha a nítida impressão de estar atolado até o pescoço em um pântano. Tomado por uma sensação amarga, virou o rosto e deparou-se imediatamente com as pupilas de Grayson. Como se estivesse aguardando que Dane o encarasse, o rapaz abriu um sorriso radiante.
“Será que essa expressão é genuína?”
Dane questionou-se mais uma vez. Ele não era capaz de mensurar o que dali era encenação e o que era real. Ainda atordoado, fixou o olhar em Grayson.
“Não, chega. Pare com isso.”
Um sinal de alerta ecoou no fundo de seu peito. Não dê mais nenhum passo à frente, você já se envolveu profundamente até demais.
“Eu sei disso.”
Grayson inclinou a cabeça para o lado. Como se estivesse decifrando o que se passava pela mente do parceiro.
— Grayson.
“Não faça isso.”
— Sim — Grayson atendeu de imediato. Mesmo escutando a sirene tocar ensurdecedoramente em seus pensamentos, Dane moveu os lábios:
— Tem mais uma condição para que eu continue morando nesta casa.
Grayson piscou os olhos, aguardando a continuação. Dane prosseguiu utilizando seu tom compassado de sempre:
— A partir de agora, quando estiver comigo, demonstre a expressão real do que está sentindo. Se você não souber qual feição adotar, tudo bem também. Pode apenas ficar parado com a cara lavada. Não force um sorriso ou uma reação só porque colocou na cabeça que precisa fazer isso de forma mecânica, entendeu?
Grayson não respondeu de imediato. Apenas continuou observando Dane com os cantos da boca elevados. Ficava evidente que ele não estava compreendendo patavina do que era dito. Dane apontou a falha na mesma hora:
— Isso, exatamente como está fazendo agora.
Ao notar Grayson vacilar, ele complementou a explicação:
— Se você não souber o que expressar, não precisa fazer cara nenhuma. Não há necessidade de sorrir.
Os lábios de Grayson resistiram a se mover no início. Dane permaneceu encarando obstinadamente as pontas repuxadas daquela boca, como se estivessem coladas ali. Até que elas hesitaram e, lentamente, cederam para a posição neutra.
— Tudo bem.
Dane finalmente esboçou um sorriso e dirigiu-se a ele, que agora exibia uma fisionomia um tanto sem jeito:
— Bom menino.
Grayson apenas piscou e permaneceu estático diante do gesto de Dane, que desferiu um leve tapinha em seu braço. Dane não perdeu tempo e girou o corpo para retornar ao interior da mansão. Grayson limitava-se a observar suas costas, mas Dane parou abruptamente, como se uma nova ideia lhe ocorresse:
— Ah, e tem mais uma coisa.
Ele sequer esperou pela anuência de Grayson para ditar a regra:
— No futuro, se você sentir a necessidade de ajudar alguém, me pergunte primeiro. Não tome nenhuma atitude baseada no seu próprio julgamento, estamos entendidos?
Grayson hesitou por um segundo e assentiu com a cabeça. Dane devolveu o aceno uma única vez, virou-se e cruzou o salão. Grayson continuou imóvel no mesmo lugar, assistindo-o subir os degraus de dois em dois até alcançar rapidamente o pavimento onde ficavam os dormitórios. E, mesmo depois que Dane sumiu por completo de seu campo de visão, ele permaneceu parado ali.
Uma brisa noturna, fresca e suave, roçou as orelhas de Grayson como se fizesse um afago.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello