2621-capitulo-5
— Deve ser solitário não ter companheiros no palácio.
Taerok não tinha jeito para consolar ninguém, então desviou o assunto. Ele pensou que, no devido tempo, poderiam arranjar um colega da mesma idade para Nanyeong, e isso já seria suficiente para distraí-lo um pouco. Se fosse uma criança de família influente, talvez não fosse do agrado dele, mas…
— Ah, não.
Nanyeong hesitou, balançando a cabeça.
— Eu tenho Shim Eung, Su e você, tio.
E riu sem malícia.
— Não é um companheiro de verdade, afinal.
Taerok suspirou novamente. Ele não havia providenciado amigos, nem o mestre tinha arranjado um, e isso mais parecia negligência do que proteção. Taerok franziu a testa diante da resposta inesperada de Nanyeong, murmurando:
— Então posso brincar com você.
Nanyeong não entendeu o que ele disse, e Kiheum, que estava atrás, também ficou momentaneamente confuso.
— O que quer dizer com isso?
Kiheum perguntou, tateando as palavras. Ele, como Taerok, compartilhava da opinião de que certas crianças não deveriam interagir com ele. E Taerok sabia disso muito bem.
— Se ninguém mais pode, por que não brincar comigo? Ou será que também sou um “ninguém”?
— Não, claro que não. Mas o Jovem Mestre deve conviver com crianças da mesma idade…
— Também fui chamado de Jovem Mestre e agora sou um adulto.
Taerok riu de forma sarcástica.
— Mesmo que a idade seja diferente, a posição não é a mesma?
Ele sabia que estava sendo teimoso, mas se isso permitisse dar um pequeno desafio àquele mestre astuto, poderia se comportar de forma infantil à vontade. Nanyeong tinha ensinado a ele essa forma de brincar com as palavras.
— Pense melhor. Claro… sendo Príncipe, sei melhor do que ninguém sobre crianças da família real. Mas não me diga que o mestre sabe mais do que eu.
— Tio…
O clima ficou tenso entre os dois adultos deixando Nanyeong visivelmente constrangido. Taerok olhou para a mão que puxava sua manga, e Kiheum também não cedeu nem um pouco.
— Os estudos o aguardam. Se despeça do seu tio e volte, Jovem Mestre.
Nanyeong hesitou, mas afastou a cabeça. Taerok, querendo provocar Kiheum, foi ainda mais gentil com Nanyeong do que o habitual.
— Seu mestre é muito exigente, a gente se vê depois.
— Eu não sou exigente!
— Então diga isso para ele. Bom, até mais, meu querido sobrinho.
Taerok deu um leve tapinha nas costas de Nanyeong. O menino, olhando repetidamente para trás, voltou para Kiheum, que, diferente do normal, apertou sua mão.
— Os adultos brigam com as crianças.
Apesar de criticar sua própria atitude, Taerok mantinha um sorriso no rosto.
De volta ao seu palácio, Taerok se preparou imediatamente. Seus guardas e servos também estavam prontos, antecipando suas ordens. Era óbvio que ele estaria de mau humor após a audiência com o Rei. Taerok colocou seu arco no ombro e montou no cavalo.
— Vamos.
Com essa palavra, todos saíram correndo pelos fundos do palácio. O palácio de Taerok era cercado por montanhas atrás e pelo rio à frente. O verão não era a melhor estação para caçadas, mas correr já melhorava seu humor.
No final, a caçada daquele dia não foi muito produtiva. Embora tivesse capturado uma faisão logo no início, sua concentração diminuiu.
(N/T: Faisão ou uma ave semelhante com “rainha” no nome, caracterizada por plumagem vistosa, como branco, preto e vermelho, em contraste com a cauda longa e rajada.)
Ao levantar o faisão morto, Taerok pareceu pensar profundamente, olhando fixamente para o animal. Os acompanhantes acreditavam que ele observava o faisão, mas, na verdade, ele estava avaliando o peso, comparando mentalmente com Nanyeong. Pensar no sobrinho enquanto segurava o faisão morto era, de certa forma, cruel. Ainda assim, Taerok começou a esgotar habilmente o sangue do animal.
Mesmo com o cheiro de sangue, os animais eram mais atraídos pelo ferro, e o caçador falhou. Só depois de capturar mais dois faisões Taerok retornou.
— Separe as melhores penas. Vão servir pra alguma coisa.
Ele jogou o animal morto e notou que o pano que cobria sua cabeça estava molhado de suor. Limpou o rosto com uma toalha úmida, se lembrou de Nanyeong, que ficou surpreso ao vê-lo vestir roupas quentes sem suar.
— Hoje exagerei em coisas que normalmente não faço.
Ele franziu a testa. Por causa de Kiheum, fez algo desnecessário. Não havia intenção alguma de abraçar Nanyeong, era uma coisa constrangedora demais. O boato de que “Taerok é particularmente carinhoso com Nanyeong” já era suficiente, fosse verdadeiro ou não.
— Também sou imaturo. Não acha?
O servo que lavava suas costas perguntou: — Hã? — e Taerok negou com a cabeça, jogando a toalha.
— Vou me lavar. Não precisa esquentar a água.
Sua voz ecoou pelos cantos do palácio.
Na manhã seguinte, enquanto lavava o rosto, Taerok virou a cabeça molhada e perguntou agressivamente:
— Hmm? Quem está aí?
O servo hesitou, parecendo um criminoso de repente. Taerok limpou o rosto com a toalha, mas seu ar severo não desapareceu.
Mesmo após ouvir a explicação do servo, ele franziu a testa. Havia dito para que decidissem por conta própria sobre seu casamento, mas, aparentemente, as coisas avançaram mais do que imaginava.
— Deixe como está.
Ele juntou o cabelo e acenou com o queixo. O servo se curvou profundamente, mesmo sem culpa alguma.
Taerok prendeu o cabelo no tradicional penteado de jovem adulto, mesmo sem ter casado. Dizem que só quem tem filhos é verdadeiramente adulto, mas ele não se importava com a opinião pública. Ao mesmo tempo, se lembrou de Nanyeong, que não via há dias.
A doença de verão de Nanyeong e a caçada haviam feito com que ele ficasse uma semana sem ver o sobrinho.
— Talvez eu vá ao palácio hoje.
Se o motivo fosse simplesmente não suportar a saudade do sobrinho, até seria um bom pretexto para recusar o noivado. Mas já era tarde: o compromisso estava avançado, e a noiva esperava nas terras férteis ao redor do palácio.
Taerok cruzou os braços, esperando a abertura do portão. Quando o portão se abriu, uma serva e um homem que provavelmente a acompanhava como guarda estavam lá. Seus olhos se cruzaram, Taerok sorriu brevemente.
Iriam se desagradar mutuamente. Personalidades e orgulho eram semelhantes. Um simples olhar já dizia tudo.
— Seja bem-vinda.
Ele falou com cortesia. A mulher passou pelo alto batente facilmente, e a bainha levemente erguida revelou bordados delicados, semelhantes aos da coroa de seda multicolorida que Nanyeong usava.
— Saúdo o Grão-Príncipe.
Taerok se lembrou dos bordados de flores, morcegos e lótus, despertando lembranças.
— Gostou da minha escolha de sapatos?
— …são belos. Tem bom gosto.
Havia tensão, embora fossem noivos. Taerok conduziu a mulher ao interior, onde estava a mesa de chá. No registro enviado, só constava o nome do pai das mulheres, não o delas. Taerok achou isso absurdo; parecia que os anciãos estavam ordenando um casamento sem nem conhecer a noiva.
— Mesmo sendo minha noiva, não sei sequer seu nome.
A mulher pegou suavemente a mão de Taerok, subindo para o salão, e olhou para trás. Apesar de mulher, tinha uma expressão feroz, quase de tigresa. Traços belos e marcantes.
— Sou Min Nanok.
Taerok franziu levemente a testa e sorriu. Nos últimos anos, a vida parecia dar sempre problemas com nomes que se confundiam.
Nanok gravou em sua mente. Taerok já começava a planejar como quebrar este noivado. Ou talvez fosse ela a quebrar primeiro, pois parecia improvável que se contentasse em viver silenciosamente como esposa de príncipe.
***
— Hoje você não parece estar se concentrando, hein.
Taerok girou a espada na mão e o repreendeu. Normalmente, Nanyeong ficaria trsite com esse comentário, mas hoje respondeu com uma expressão emburrada, como se dissesse: “Eu sei muito bem que não estou concentrado, tio.”
Nanyeong, com cinco anos, já fazia quase um ano que segurava a espada de madeira, e sua postura havia melhorado um pouco. Mas justamente nesses momentos, os erros surgiam: quando se sente mais confiante, quando algo parece mais fácil, é exatamente aí que a mente se distrai. Entre guerreiros, diziam que até os espíritos podiam possuir alguém. Um pequeno descuido e você se corta, se machuca, se ferra.
Taerok se aproximou, segurou Nanyeong e o girou.
— Se você se distrair, será possuído pelos espíritos.
A voz baixa fez Nanyeong se queixar:
— Por que o senhor só me conta histórias assustadoras todos os dias e não me ensina nada importante?
Taerok entendeu que ele se referia à esgrima.
— Porque suas habilidades ainda são insuficientes.
— Não! Não é da esgrima que estou falando! Eu… sei que não sou bom…
‘Ele tem essa consciência? Ainda bem.’ Taerok percebeu que a mente de Nanyeong estava em outro lugar, mas mesmo assim não encerrou a aula. Pelo contrário, colocou uma pequena bolsa de areia na espada de madeira. Era tão pequena que não cabia totalmente na palma da mão, mas ao receber, o pulso de Nanyeong se dobrou.
— Não é o pulso, é aqui, pelo braço. Levante o braço.
— Isso… é algum castigo por não estar concentrado?
— Fico contente que tenha percebido que não estava concentrado. Mas não é castigo.
Taerok trouxe seu arco. Até então, Nanyeong segurava a espada como se estivesse sendo punido. O eunuco atrás dele, inquieto, alertava constantemente para não torcer o pulso. Mas palavras não bastam; quando é pesado, o braço se cede.
No calor do verão, o corpo macio e quente da criança suava abundantemente. Taerok calmamente retirou a espada das mãos de Nanyeong e segurou o arco. Exagerando um pouco, o arco quase do tamanho do próprio Taerok fez o braço do menino cair verticalmente.
— Este é um arco negro. Pesado, não é? Você também deve começar a aprender arco agora, mas o arco de madeira é bem mais leve. Mesmo assim, acho que terá dificuldades em puxá-lo.
A mente de Nanyeong, cheia de confiança e admiração pelo tio, desmoronou como seu braço. Queria ser como ele, mas será que conseguiria sequer chegar aos seus pés?
— Eu tenho dezenove anos… você tem seis. Não se preocupe em se apressar.
Taerok retirou o arco das mãos de Nanyeong.
O menino se sentiu triste. Triste por ter apenas seis anos, e invejoso da idade do tio.
Com os lábios caídos, Nanyeong perguntou:
— Tio… o senhor vai se casar…?
De repente, a conversa tomou um rumo inesperado.
— Bem… sim, quando chegar a hora.
— Por que não me disse antes…?
— Que grande evento… se é que dá pra chamar assim.
— É um momento de alegria!
Criança é criança. Taerok às vezes se sentia irritado com Nanyeong, mas dessa vez não pôde evitar sorrir.
— Está preocupado com este tio? E você, sobrinho?
— Sim… isso é errado?
— Sim. Não faça isso.
Taerok sorriu genuinamente.
— Não desperdice preocupações comigo. Um dia, você vai se arrepender de gastar energia assim. Use para você, ou para sua família que ama.
Nanyeong hesitou, mas como Taerok já o havia abraçado antes, resolveu passar o braço pelo pescoço.
O coração do menino bateu mais rápido. Sem perceber, Taerok ouviu o ritmo do coração de Nanyeong, que ele não queria e nem precisava ouvir.
— Tio… o senhor não é… da minha família?
Uma conexão impossível, uma relação incompreensível. Taerok já viviu situações semelhantes, mas nunca sentiu algo tão palpável na pele. Quando se percebe que não se pode entender alguém, ou que vai odiar o noivado assim que acontecer, normalmente basta olhar para o lado e pronto. Mas agora, com Nanyeong o segurando, não havia como desviar.
O calor do corpo dele era incômodo e ao mesmo tempo curioso. Taerok franziu a testa e suspirou longamente. Ensinar Nanyeong frequentemente o levava a situações ridículas como aquela.
— Vamos encerrar por hoje.
Finalmente, Taerok soltou Nanyeong.
— Parece que você não vai se concentrar nem um pouco.
— …não é isso.
Ele desviou o olhar, como um cachorro envergonhado, sabendo que estava no alvo certo.
Continua….
.
.
.
LILITH TRADUZ (@lilithtraduz)












































