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2620-capitulo-4

Taerok sabia muito bem o que estava prestes a fazer era uma tolice. Aquilo não era o modo da família real. Ser tão carinhoso e brincalhão tampouco era do feitio de Taerok.

 

Mas justamente por isso, funcionou com Nanyeong.

Ele ergueu devagar o rosto, largando o tecido da roupa do eunuco, e se virou para trás. Do pano verde escorria uma linha clara de catarro, que logo se partiu e caiu. Taerok franziu o cenho, mas, sem querer, riu da cena.

 

— Tio…

 

Nanyeong abriu os braços e correu para ele. Na barra verde da veste do eunuco ficaram manchas ainda mais escuras de lágrimas e muco. O eunuco estava surpreso, e Taerok, sem palavras. Enquanto ainda olhava para aquela barra ridícula de roupa, acabou abraçando Nanyeong, que se pendurava em sua perna. Foi apenas um abraço desajeitado, se inclinando e segurando as costas pequenas.

 

— Não fique bravo comigo… não vou mais ser insolente.

 — …na verdade, os príncipes não têm muito o que fazer além de serem insolentes.

 — Mesmo assim… aprendi que não devemos ser assim com a família. Não devia ter feito isso com o senhor.

 — Família é tão importante assim?

 — E para o senhor não é?

 

Nanyeong ergueu o rosto para Taerok.

Não, não era importante. Para ele, não tinha grande significado. Mas como poderia confessar isso a um semblante tão puro? Se o fizesse, aquele garoto teimoso e solitário choraria por três noites seguidas. E, uma vez ouvindo seus soluços, Taerok sabia que o eco o perseguiria até mesmo em sua residência.

 

— Bom… vamos dizer que sim.

 

Assim, respondeu por alto, dando três tapinhas nas costas do sobrinho. Depoi o afastou e devolveu a espada de treino.

 

— Nunca mais largue a arma das mãos. Um dia, quando crescer e estiver forte o bastante para caçar, eu mesmo vou mostrar o quão idiota foi a sua atitude de hoje.

— …então está prometendo que vai me levar para caçar?

 — Como é que chegou a essa conclusão? Eu não disse isso. Sério, os mestres o elogiam tanto, mas não me parece muito inteligente.

 — ……

 — Primeiro, você tem que crescer mais.

 

Taerok suspirou. Era raro se sentir tão cansado, mas, diante do menino, não conseguia ser severo demais.

 

Nanyeong se afastou e voltou a brandir a espada de madeira. Taerok não sabia se algum dia conseguiria ensinar de fato a lição sobre a insensatez, nem se ele chegaria a crescer o suficiente para se casar. Não conseguia imaginar essa cena.

 

Naquele dia, o jantar reuniu o Rei, a Rainha, o Príncipe Herdeiro e até a Rainha-Mãe Viúva. Um retrato perfeito de família. Para os adultos, a presença de Taerok não era necessária. Sendo já adulto, não havia porque convocá-lo para ocasiões assim.

 

Mas Nanyeong, intimamente, achou que seria melhor se o tio também estivesse presente. E, sem perceber, acabou deixando escapar seu sentimento ao final da refeição.

 

— Então gosta mesmo do seu tio? — perguntou sua avó, a Rainha-Mãe Viúva.

 

Nanyeong despertou de sobressalto. Mas, como treinava sozinho, forçou o melhor sorriso que podia, se mostrando saudável e sem mágoas, e respondeu com voz clara e animada:

 

— Sim!

 

O Rei, a Rainha e a Rainha-Mãe trocaram olhares discretos.

Apesar de Taerok sempre manter distância, Nanyeong ainda o admirava com toda pureza. Isso era surpreendente. Talvez os rumores fossem verdadeiros: que, por mais frio que fosse com os outros, Taerok olhava para o sobrinho com um carinho especial.

 

— Muito bem… assim como ensinam os sábios, devem respeitar os mais velhos. Continue tratando bem o seu tio.

 

O Rei, como sempre, falou com voz paternal e suave.

 

O sol já se punha. Quanto mais os dias escurecem, mais rápido a noite engolia a luz.

 

O Príncipe Herdeiro, Gak, deixou escapar uma ponta de amargura:

 

— Meu tio nunca me deu atenção alguma… nunca pensei que até ele fosse ter algum apreço.

 

Mal pronunciou as palavras, percebeu o erro. O Príncipe mordeu os lábios.

 

A posição de herdeiro era pesada e exigente.

Ao redor de Nanyeong, não havia expectativas, nem pessoas que esperassem algo dele. Já Gak estava sufocado exatamente por causa das expectativas. Daí vinha, às vezes, esse pequeno veneno de inveja contra o irmão caçula, sempre mimado e poupado. Sentimentos mesquinhos, mas inevitáveis e, terrivelmente vergonhosos.

 

A solidão de Nanyeong e a solidão de Gak eram diferentes, mas ambos doíam até o fundo.

 

— Alteza… — murmurou Nanyeong, desconcertado.

 

O Príncipe Herdeiro, envergonhado por olhar para o irmão mais novo já fragilizado de tanto adoecer, disse apenas:

 

— Vou na frente.

 

E se virou, apressando os passos.

A noite desceu sombria e pesada sobre suas costas que se afastaram.

 

Nanyeong ficou parado, olhando ele se distanciando, incapaz de desviar os olhos. O eunuco se aproximou e o consolou:

 

— Sua Alteza não deve ter falado sério.

 — …é, não foi sério.
 

— Meu irmão só estava cansado. Eu consigo entender.

 

Que menino admirável. E ao mesmo tempo, tão digno de compaixão.

 

Ainda que fossem irmãos, um seria Príncipe Herdeiro e o outro apenas o Segundo Príncipe. Seus caminhos se afastariam cada vez mais, a mesma coisa que ia acontecer com Taerok, que mesmo sendo família vai se tornar para sempre um estranho.

 

Nanyeong dizia compreender, mas não conseguia arrancar os olhos das costas do irmão que partia. O eunuco, com cuidado, se colocou à sua frente, bloqueando a visão. Só então Nanyeong baixou a cabeça e começou a andar. Seus passos soavam cheios de solidão.

 

***

 

O tempo das crianças flui como água. Um ano se passou e já é verão. Nanyeong, sendo uma criança que suava muito, estava lendo em voz alta, escorrendo suor. Kiheum, que é seu mestre desde os tempos que ele, agora o ensinava de maneira relativamente mais suave do que antes.

 

— Exatamente. A piedade filial é isso: respeitar os pais e, além disso, valorizar o corpo que eles nos deram. Não se trata apenas de servir aos superiores, mas também de proteger a si mesmo, e isso também pode ser chamado de piedade filial.

 

(N/T: Piedade filial (ou filial piety) é um conceito confucionista de respeito, obediência e cuidado com os pais e ancestrais, sendo uma obrigação moral e virtude fundamental, especialmente na cultura chinesa. )

 

A voz de Kiheum era muito suave, carregada de orgulho. Nanyeong aprendia de forma livre e expressava seus pensamentos – uma flexibilidade que não era permitida ao Príncipe Herdeiro.

 

— Vamos fazer uma pausa?

Kiheum perguntou com um sorriso generoso, e só então Nanyeong relaxou a postura. Se sentar ereto já era cansativo, sinal de que, mesmo aos seis anos, após um ano inteiro, seu corpo ainda não estava totalmente saudável.

 

Então veio a fruta gelada. Foi servida na ordem do Rei, da Rainha, da Rainha-Mãe Viúva e do Príncipe Herdeiro, até chegar a Nanyeong, o gelo cuidadosamente quebrado e colocado em uma tigela de metal.

 

— É algo precioso, então coma com cuidado, aprecie cada pedaço com gratidão.


— Sim, mestre.


Nanyeong respondeu com firmeza. Ele havia se alimentado rapidamente de algo gelado antes e ficou muito indisposto, então agora usava a colher cuidadosamente. Era muito doce. O rosto de Nanyeong se iluminou.

 

— Posso abrir a janela?

 — Pode.

Kiheum acenou com a cabeça prontamente. O eunuco, que observava, ia abrir a janela, mas Nanyeong abriu sozinho. Por coincidência, avistou Taerok passando.

 

Os olhos de Nanyeong brilharam. Normalmente não se vê estrelas e lua no meio do dia, mas para Nanyeong, aquela estrela brilhava mesmo sob o sol do meio-dia.

 

— Tio!


Mesmo com Kiheum presente, Nanyeong, tomado pela alegria, chamou Taerok.

 

Taerok se virou rapidamente ao ouvir seu nome.


Ele estava de muito mau humor naquele momento, pois tinha ido ao palácio por ordem do Rei. Ao se sentar, o Rei imediatamente começou a falar sobre seu casamento.

 

— Você ainda não encontrou a filha de Park Changcheon?


— É para isso que me chamou aqui?
 

Taerok demonstrava aborrecimento de forma explícita, e o Rei sorriu suavemente.

 

— Você já tem dezenove anos. Não deveria casar para servir de exemplo?

— Não preciso ser exemplo. Posso simplesmente viver discretamente e mostrar lealdade ao senhor quando necessário.
 

— Não se diminua assim.

 

Apesar da severidade das palavras, o rei demonstrava pesar em relação a Taerok. Ele sabia o quanto Taerok era talentoso. Se tivesse nascido em uma família comum, teria sido mais fácil mostrar suas habilidades.

 

— Como parente, você tem muitas responsabilidades.

— Mas os anciãos provavelmente não querem que eu me exponha.

— Vamos falar sobre casamento, hoje.

 

O Rei trouxe a fruta gelada para Taerok, mas ele apenas olhou, sem tocar.

 

— Se disser que não quer casar, seria desrespeitoso? Contrário à minha intenção?


— Talvez não desrespeito, mas seria falta de piedade. Como irmão, quero saber o motivo da sua recusa.

 

O rosto de Taerok contrastava com a suavidade do Rei, parecendo quase outra pessoa. Ele acabou tomando chá quente em vez da fruta. Embora detestasse a gentileza e a fragilidade do irmão, sentia sentimentos complexos em relação a ele.

 

— As famílias de oficiais ainda são uma ameaça. Não há necessidade de aumentar seu poder.


— É porque Park Changcheon vem de uma família influente? Então existem outras mulheres, não?


— São todas iguais.

 

Taerok riu sarcasticamente. Queria questionar a quem realmente pertencia aquele país, mas sabia que o irmão daria a resposta correta, que ninguém poderia contestar. E ele odiava a “resposta certa”.

 

— Quanto a seu sobrinho…

— Não tem talento para artes marciais. Corpo fraco e pele delicada.


— Não quero que ele se torne um guerreiro, apenas que se defenda.


Taerok esfregou as sobrancelhas e murmurou:

— Então é meu dever proteger ele. Ele é inteligente, e as armas não se resumem a espadas.

 

O Rei brilhou os olhos com essa resposta.

— Parece que você realmente se preocupa com Nanyeong.


— Não posso me preocupar demais, ou confirmaria os boatos exagerados.

 

Após a audiência, Taerok caminhou sem destino até chegar ao local da leitura de Nanyeong. Se o clima estivesse um pouco diferente, ele não teria se encontrado ali.

 

Ao ver Nanyeong na janela, chamando “Tio!”, Taerok não exigiu formalidade. Era o esperado de um irmão mais novo do Príncipe Herdeiro.

 

— O que está fazendo aí?


Taerok perguntou com voz baixa. Nanyeong se virou rapidamente, alegre.

 

— Mestre! Posso ir cumprimentar meu tio por um momento? Quero praticar a piedade filial que aprendi!

 

Kiheum não pôde recusar. Com um sorriso forçado, consentiu:


— Vá em frente.

 

Taerok esperou pacientemente. Nanyeong corre desajeitadamente, rindo. Quando quase caiu no chão, Taerok o segurou.

 

— O chão não está nivelado. Quem é responsável por aqui?


O eunuco Shim Eung, correndo atrás, olhou para Taerok e se desculpou com reverência.

 

Mesmo  eunuco, que via os dois juntos frequentemente, não conseguia decifrar os sentimentos de Taerok por Nanyeong. Às vezes frio, ás vezes carinhoso, mas sempre segundo os próprios padrões de Taerok.

 

— Não coma muita fruta gelada. Te fez mal da última vez, lembra?


— Você soube?


— Suspeitei, mas parece ser verdade.

 

Nanyeong ficou desapontado, e Taerok deu um passo atrás.

 

— Além disso, não se deve sair suado. Se limpe e arrume a roupa. Você pode pegar resfriado.


— …?

— Resfriado no verão, dizem que nem cães pegam.


— Então sou pior que um cão?


— Você é mais delicado, por isso é mais vulnerável.

 

Taerok ofereceu uma consolação improvisada. Nanyeong, inocente, aceitou como elogio. Se aproximou dele, quebrando a distância entre os dois.

 

— Você já pegou um resfriado no verão, tio?


— Não. Apenas catapora quando criança.

 

Nanyeong ficou chocado. Taerok, sendo forte, não adoece facilmente, ao contrário dele. Taerok percebeu a confusão e sorriu de lado:

 — Então, acho que sou um cachorro.


— Não!

 

Se Kiheum estivesse presente, teria franzido a testa. Talvez o Rei pensasse que Taerok estava se comparando a um cão.

 

Nanyeong abraçou as pernas de Taerok, balançando a cabeça:


— Você não é um cão, tio! Absolutamente não!


— Acha que me conhece tão bem assim, hein?


— É que, sendo meu tio, você também deve ser delicado e vulnerável, como eu.


— Nem todos os irmãos se parecem, nem tios e sobrinhos.


— É, não parecemos…


— Já chega de discutir. Vamos entrar, é hora de estudar.

 

O calor estava intenso, e Taerok empurrou suavemente o ombro de Nanyeong, que se mostrou triste. Ele olhava para Taerok, percebendo que ele não suava, mas dizia estar quente.

 

— Se vocẽ chegar atrasado, seu mestre vai te  repreender.

— Meu mestre não me repreende como você, tio. Ele apenas me incentiva demais, e às vezes isso me assusta.

 

Taerok se inclinou levemente para falar ao ouvido de Nanyeong. Crescendo com dores de crescimento, ainda sentia cãibras nos joelhos, tornozelos e cotovelos. Nanyeong, embora também estivesse crescendo, não conseguia alcançá-lo. Taerok suspirou ao observar o sobrinho tentando acompanhá-lo.

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LILITH TRADUZ (@lilithtraduz)

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