2619-capitulo-3 › Mr Yaoi
Casa Post 2619-capitulo-3

2619-capitulo-3

Até mesmo um parente de sangue, parecia uma prova difícil de se engolir. O eunuco, de cabeça baixa, lançou um olhar enviesado.

Mas, se Saon estivesse presente, teria ficado surpreso. Pois Taerok, por natureza, não era do tipo que ficaria por causa de um pedido de Nanyeong. Só o fato de ter interrompido o passo já era algo fora do comum.

— Eu continuo vendo coisas assustadoras… Acho que são aqueles monstros de que o tio falou…

— Você está alucinações porque sua febre está alta.

Ou talvez fosse apenas uma desculpa para disfarçar a solidão.

Taerok, friamente, achou essa segunda hipótese mais provável.

O eunuco que serviu Nanyeong por muitos anos, cerrou os dentes em silêncio, pensando: ‘Como pode ser tão frio e sem coração?’

— Mas… elas continuam aparecendo…

Com olhos marejados, Nanyeong chamou pelo tio. Talvez por causa da acupuntura, a vista estivesse mais clara. Taerok observou o médico com atenção. 

Nada mau, preciso lembrar dessa pessoa.’

E, não importando se Taerok desse atenção ou não. Nanyeong, criado sob constante afeto desde o berço, agia exatamente como aprendeu. Implorando.

— Se o tio ficar comigo… acho que vou ter muito menos medo…

‘Basta, príncipe. Esse homem é um frio sem coração. No lugar do sangue corre água gelada, no lugar dos ossos, puro gelo.’ 

O eunuco, receando que seu senhorzinho fosse ferido, se aproximou e tentou confortá-lo.

— Eu vou ficar com Vossa Alteza. Ou, se preferir, posso chamar uma dama da corte para contar histórias.

Ouvindo isso, Taerok achou tudo aquilo ridículo.

— Fala direito.

Ele deu meia-volta. A razão era simples: queria apenas se divertir à custa do eunuco que, de maneira tão evidente, se angustiava por causa da criança que servia. Como esperado, quando Taerok voltou e se aproximou, o eunuco se assustou com um gato. Taerok então se sentou à cabeceira e tomou da mão do eunuco a mãozinha úmida e quente de Nanyeong. A sensação estava longe de ser agradável.

— Falar direito significa não enrolar, não disfarçar o que quer, mas dizer claramente. Caso contrário, não vou atendê-lo e vou fingir até o fim que não compreendi seus sentimentos.

No fundo, aquelas palavras eram uma crítica ácida do próprio tio de Nanyeong. Mas o menino, febril e mais dócil que de costume, não captou a intenção. Só reteve uma coisa: que deveria falar claramente.

Nanyeong gostava do tio. Da postura imponente como uma montanha, das feições nobres e belas como as de ninguém no palácio, e até mesmo do cheiro de floresta invernal que emanava dele. Era, em suma, um homem que servia de exemplo a quem se inspirava. Além disso, era alguém que podia ver quase todos os dias. O palácio era grande e vazio demais; Taerok era um rosto constante, alguém caloroso, que não precisava tratá-lo com excessiva formalidade nem tinha razões para temê-lo.

Vou o que o tio me ensinou.

Nanyeong apertou a mão de Taerok. Tão fraco que apenas fazia cócegas. E como Taerok detestava cócegas, arqueou a sobrancelha com impaciência.

Mas o sobrinho insistiu, num tom macio e frágil:

— Por favor, fique comigo… até eu adormecer de novo.

Talvez fosse mais um pedido… ou até um apelo.

Taerok estalou a língua, contrariado por ter-se deixado prender naquela situação apenas para provocar o eunuco. E este, por sua vez, tinha no rosto uma ousadia rara: “Ouviu bem, não? Não vai me dizer que o vai deixar agora, vai” – dizia sua expressão com clareza. Se fosse um subordinado seu, já estaria rebaixado ou morto. O que será que esse pequeno tinha de tão especial para ser tão adorado?

Depois da melhora momentânea, a situação voltou a piorar com a retirada das agulhas e o moxibustão. O menino contorcia o rosto, lágrimas correndo em silêncio. Antes, Taerok achava que ele só estava choramingando e que cederia facilmente; mas agora, a cena era outra.

— Está suportando bem. — Murmurou Taerok.

Sem pensar, o eunuco respondeu:

— Está acostumado a adoecer… não gosta de preocupar as pessoas, e diante dos superiores…

Já bastava para Taerok. Ele poderia facilmente deduzir o resto.

— Por adoecer com tanta frequência, ninguém mais dá ouvidos, não é?

— …nunca, jamais o Jovem Mestre faria uma birra, senhor.

Então ele só falava depois de muito suportar. Mas, por ser frequente, os outros se afastaram, visitavam cada vez menos. O medo da decepção. O temor de ser visto como fardo.

Tudo fazia sentido.

— E por isso aprendeu a suportar calado, não é?

O eunuco murmurou, sem desviar os olhos do menino.

Taerok então voltou a olhar para Nanyeong. Era realmente pequeno, menor que os da idade dele. E sempre doente. Para Taerok, um ser inútil e incômodo. Quase inacreditável que fosse seu sobrinho.

Mas… a paciência, a capacidade de se conter e ocultar — isso o agradou muito.

— Hmm.

Apoiando o queixo nos dedos, Taerok deixou escapar um som curioso. O eunuco, surpreso, notou que nunca tinha visto uma expressão tão leve em seu rosto.

Mas, conhecendo bem o homem, interpretou errado: achou que ele sorria por se alegrar com o sofrimento do sobrinho. 

‘Frio e cruel! Nem que a própria família morra jamais vai derramar uma lágrima!’

O eunuco disfarçou o pensamento com um semblante impenetrável, pegou a bacia e se levantou.

— Vou trocar a água.

— Faça como quiser.

Taerok acenou displicente.

Antes de fechar a porta, ele ainda perguntou:

— E aquela janela, fica aberta o tempo todo?

— Ah… quando a febre está muito alta, deixamos aberta. Dizem que, se durar tempo demais, o corpo pode ficar arruinado para sempre…

— Entendi.

Arruinado para sempre apenas por causa da febre? Aquilo pareceu estranho e até engraçado para Taerok, que soltou uma risada seca. A esse som, a mãozinha em sua palma estremeceu.

— Um corpo tão frágil que parece deixar marcas só de tocá-lo.

De tudo o que tocou até hoje, Nanyeong era o mais macio e vulnerável.

Quando Nanyeong se levantou de sua cama, se espalhou pelo palácio, até chegar nos ouvidos do próprio Taerok. O rumor de que “aquele Taerok não era feito só de gelo e sangue-frio; parecia achar seu sobrinho adorável.”

A resposta dele foi simples:

— Parece que não têm nada melhor a fazer.

Saon achou a reação inesperada.

— Um rumor como esse, sob qualquer ângulo, deveria te incomodar. E mesmo assim você deixou passar?

— Não me traz nenhum mal. Por que me incomodaria?

— Olha só… até o “Grão-Príncipe” tem apreço pelo sobrinho, ao que parece.

Taerok, sem responder, se concentrou em ajustar uma flecha, erguendo no ar para verificar sua postura. Planejava sair para caçar antes do inverno.

No fundo, ele refletia: ‘Será que gosto dele só porque é meu sobrinho?’ 

Mas não, se fosse assim, o mesmo valeria para o Príncipe Herdeiro, e este, francamente, só causava dor de cabeça.

E também não era que achasse Nanyeong “adorável”. Fora apenas tédio, visitava o palácio, via a criança choramingar e dava atenção. Nada além disso. E ainda assim, o povo fazia alvoroço. 

‘Se um pequeno gesto já causa tanto boato, o que diriam se eu resolvesse mesmo tratá-lo gentilmente?’ 

A ideia arrancou um sorriso enviesado do seu rosto.

— Talvez eu devesse tentar de verdade. 

Mas em seu sorriso não havia sentimento algum, apenas a curiosidade de quem cutucou em um vespeiro.

— Ele é muito mimado. Cercado por gente que o trata com pena, cresceu sem maldade nenhuma.

— Mas, veja, senhor, justamente isso o povo chama de adorável… aí!

Saon recuou quando a ponta da flecha, firmada por Taerok, cortou o lábio. O sangue escorreu.

— Por que faz isso?! — protestou, ofendido.

— Estava vendo se sua língua cresceu junto com sua conversa fiada. Se tivesse, eu a cortaria.

— Não está! Não cresceu! Por favor, não me assuste assim… se continuar, até seu querido sobrinho vai acabar tendo medo de  você.

— Pois que história. Essa criança precisa aprender o que é o medo.

— E não seria melhor que continuasse rindo, despreocupado?

— Saon, lembre-se: sou um príncipe, um taegun. Não é alguém com quem deveria falar tão livremente.

(N/T: Taegun / daegun / 태군) é um título nobre coreano usado na dinastia Joseon = “Grão-Príncipe” título dado aos filhos legítimos (filhos da rainha) de um rei. Como o senhor é um Daegun, não é que vá ‘se casar’, mas sim que vá receber uma consorte escolhida para si.)

Diante do peso das palavras, Saon ergueu as mãos em rendição. 

‘Me mate, se quiser’

Mas sem real convicção. Taerok o deixou quieto. Vindo de uma família militar, de linhagem antiga, endurecida em lutas contra bárbaros nas fronteiras. A lealdade e a memória de Saon eram úteis; algumas insolências, ele podia perdoar.

As fronteiras que Taerok guardava variam conforme a pessoa: severo com as famílias de mérito, tolerante com o irmão imperador, ainda que não fosse do seu gosto e, no caso de Saon, generoso. Mas quanto Nanyeong, ainda não decidiu até onde traçar essa linha.

— Ouvi dizer que o Ministério de Ritos e o Ofício dos Registros estão em busca de uma esposa para o senhor.

— Assim dizem.

— E fala disso como se fosse assunto de terceiros… já está mais que na hora. Uma consorte poderia trazer um pouco de vida a esta residência sombria. Como alguém casado antes de Vossa Graça, poderia dizer o quanto sua vida melhora… 

— Dispenso.

— Bem, de qualquer modo, pode ver pelos seus próprios olhos… o imperador e a imperatriz são um exemplo.

De fato, eram conhecidos pela harmonia conjugal, uma bênção. Mas, excessivamente semelhantes, chegavam a ser ridículos em sua encenação de “família perfeita”. E por trás da doçura da imperatriz, sua família era uma serpente enroscada.

— Há algum tipo de noiva que deseja?

Taerok, ajeitando a flecha, respondeu como quem enumera características de um objeto.

— Não quero alguém frágil. Tem de ser saudável. Tampouco alguém de temperamento sensível e delicado. Melhor se for sincera, até mesmo se os outros a chamarem de grosseira. E, quanto à família… quanto mais pobre, melhor.

— Que critérios mais estranhos!

— Estranhos? Acho que são os mais claros possíveis.

— Agora fiquei curioso para ver quem será a esposa do Grão-Príncipe.

— Se cruzar com alguém do ministério, espalhe por aí, que o gosto do Grão-Príncipe é esse.

— Quer que eu espalhe fofocas? Isso me ofende!

E, embora fingisse mágoa, Saon sorria.

Dois dias depois, ele repetia a descrição a um funcionário subalterno. Dez dias depois, o Ofício dos Registros enviou para Taerok uma lista de possíveis noivas, com suas informações astrológicas.

Taerok leu e arremessou os papéis por cima da escrivaninha.

— Querem ver suas cabeças cortadas, me mandando filhas de famílias de mérito? Que escolham: uma coisa ou outra.

E o mensageiro voltou de mãos vazias.

 

 

***

 

— O tio vai se casar? 

— Casar?

Diante da pergunta direta de Nanyeong, o eunuco não conseguiu esconder a expressão de espanto. Taerok, se jogando pesadamente no assento, olhou para a postura ainda mal ajeitada de Nanyeong e retrucou:

— Casar? Quem andou dizendo uma coisa dessas?

— Somente ouvi rumores, senhor.

— Parece que há muitas línguas soltas ao redor.

Com um olhar frio, Taerok percorreu os eunucos atrás de Nanyeong. Se levantou, ajeitou a espada de madeira que havia escorregado da mão do sobrinho.

— Não sei se meu querido sobrinho tem interesse no tio… ou simplesmente quer continuar descansando.

— Mas claro que é o senhor, tio…!

Deve estar mais à vontade agora. Até a tagarela já está.

Taerok moveu a cabeça de lado, como quem se aborrece facilmente.

— Então segure direito e continue o treinamento. Do jeito que vai, quem vai acabar se casando será você. Ou melhor, no caso de um Príncipe Herdeiro, não se trata de casar, mas de receber a consorte escolhida.

— Ah…

— Quanto a mim, não penso em casamento. Pretendo ir caçar. Então, a partir de amanhã, não vou poder vir ao palácio por alguns dias. Então pratique muito estes dias.

Embora fosse cortês com o sobrinho, o tom de Taerok soava mais como indiferença provocadora do que respeito. Nanyeong, porém, ficou ainda mais teimoso. Para ele, o tio era o homem mais admirável do mundo, alguém em quem queria se espelhar, e não suportava a ideia de ser visto como incômodo. Como acontece com muitas crianças, confundiu “não incomodar” com o contrário, insistindo mais ainda.

— E se eu for junto? Me leve com o senhor, tio.

Taerok lançou um olhar de soslaio ao sobrinho pendurado em seu braço. O eunuco, aflito, quase desesperado, e se ele resolvesse simplesmente jogá-lo para longe?

Felizmente, Taerok não o afastou de imediato. Revirando os olhos, apenas respondeu:

— Não quero. 

A recusa, dita de modo quase infantil, deixou o eunuco surpreso. 

— Por que levaria meu querido sobrinho comigo? Não passaria de um peso. Não atormente seu tio, que nem casado é ainda.

Só então o empurrou de leve. Mas, apesar da força mínima, Nanyeong tropeçou três passos para trás. Surpreso com tamanha fragilidade, Taerok chegou a olhar a própria mão, incrédulo. Percebendo isso, Nanyeong se aproximou de novo, desviando os olhos e, fingindo dor, resmungou:

— Ai… dói…

Mas, ao mesmo tempo, o observava de soslaio. Uma atitude tão transparente que chegava a dar vontade de rir. Desde a última visita ao tio, quando foi vê-lo doente, Nanyeong havia aberto o coração de forma evidente.

Claro que, só porque o sobrinho se mostrava aberto, não significava que Taerok também se deixaria amolecer.

— Nas caçadas, dormimos ao relento. E o meu querido sobrinho pega resfriado só de sentir um vento frio, não suportaria isso. Pelo bem do Príncipe Herdeiro, é melhor abandonar essa ideia desde já.

— E se eu ficar mais forte? Se eu for saudável o suficiente para acampar ao ar livre?”

‘Será que esse dia vai chegar?’ Taerok duvidava. O próprio Príncipe Herdeiro é frágil desde o nascimento, mas com o tempo pode ganhar músculo, coisa de idade. Já Nanyeong parecia frágil desde que nasceu. Sem responder, Taerok atirou sua pesada espada de treino ao ar e a pegou de volta, como se aquele gesto fosse suficiente como resposta. O rosto de Nanyeong corou intensamente.

— Um dia, o senhor vai me levar para caçar, tio?

— Confiar assim no mais velho não é um defeito, de fato.

— Mas o senhor só sabe me provocar.

— Eu? Sempre trato o meu querido sobrinho com sinceridade.

— …sério?

— Brincadeira.

As sobrancelhas de Nanyeong despencaram de súbito, e Taerok, sem querer, riu diante daquela reação. Seu sobrinho largou a espada de treino e se afastou, caminhando até o eunuco.

— Isso é falta de respeito.

A voz de Taerok o alcançou. 

— …… 

— Venha aqui, sobrinho.

Mas Nanyeong abraçou as pernas do eunuco e não olhou para trás. Taerok segurou a espada dele junto da sua e apoiou uma das mãos na cintura.

— Está me desobedecendo?

Nem assim Nanyeong reagiu. O eunuco, aflito, tentou acalmá-lo em voz baixa:

— Jovem Mestre…

Foi só quando Taerok falou que ele estremeceu:

— Lee Nanyeong.

Até então, Taerok só o chamava de “ querido sobrinho”, “sobrinho” ou “jovem senhor”. Títulos vagos, substituíveis. Mas, pela primeira vez, chamou pelo seu nome completo, de modo claro e direto com um tom severo.

 — Venha aqui, Lee Nanyeong.

.

.

.

LILITH TRADUZ (@lilithtraduz)

HOSPEDAGENS

error: Proibido baixar imagens⚠️