2618-capitulo-2
O talento de Nanyoung era terrível. Taerok exigia de Nanyoung que seguisse seus próprios padrões rigorosos, e Saon tentava ser mais paciente com o Jovem Mestre. Mas até ele via Nanyoung não possui nenhum talento.
Seu domínio da espada era fraco. Faltava a força para segurar o braço que brandia. Embora essas qualidades pudessem ser cultivadas, sua direção de ataque e seu espírito cortante eram frágeis. E também faltava a coragem de matar os outros, nem a determinação de apunhalar os outros para se proteger.
— Isso é terrível.
Taerok, que estava esfregando o rosto, murmurou com a boca coberta. Saon riu, sem demonstrar concordância nem negação.
— Sobrinho.
Taerok o chamou, batendo palmas. Apesar do físico frágil, Nanyoung era inteligente. Seu rosto ficou vermelho não apenas por estar cansado, mas porque sabia onde e como estava falhando. Taerok se aproximou dele e ficou por trás.
Ele era tão pequeno que Taerok teve que se abaixar um pouco. Ele ainda estava confortavelmente envolto em seus braços. Quando Taerok envolveu Nanyoung por trás com os braços, ele se tornou quase invisível.
Ao ver os pés pequenos, Saon pensou: ‘Parece como pai e filho.’ De fato, na idade de Taerok, não seria estranho que ele tivesse um filho. Aliás, era um pouco tarde. Até mesmo seu irmão mais velho, o atual Rei, já havia gerado o Príncipe Herdeiro quando ainda era Príncipe Herdeiro.
— Disse para você imaginar que teria alguém na sua frente tentando te machucar?
— Será que existem tantas pessoas que querem me fazer mal?
— Sim. Muitas pessoas.
Taerok não tinha escrúpulos em assustar crianças.
— Está do lado de fora da sua janela, está além da sua porta, está sob o seu teto e está dentro das suas roupas enquanto você está se trocando.
O rosto de Nanyoung escureceu diante de suas palavras assustadoras. Taerok riu baixinho, percebendo seu pequeno corpo tremendo. “Coisas como ‘seres sobrenaturais com superforça’ não passam de bobagens para enganar as pessoas comuns. Não dê ouvidos a essas coisas”, palavras do seu professor. Ou talvez ele nunca tivesse ouvido ou visto nada parecido, e por isso reagiu de forma tão ingênua, até patética.
Taerok, que é frio e cruel por natureza desde a infância, não entende as reações extremamente infantis de Nanyoung. E também não quer entendê-las. No entanto, quando vê tais coisas, pode pelo menos ensiná-lo a empunhar uma espada.
— Segure firme. A lâmina pode acender fogo e cultivar campos, mas também possui uma natureza cruel que pode feri-lo. Se você manusear de forma imprudente, meu querido sobrinho, é óbvio que a lâmina irá devorá-lo. Agora, preste atenção.
Saon pareceu interessado na explicação de Taerok. Estranhamente, ele falou longamente. Talvez achasse divertido provocar o jovem sobrinho.
— É realmente uma bagunça.
Era um pensamento que qualquer um podia ter, pois aquela pessoa era alguém que ele conhecia há muito tempo e podia chamar de amigo próximo.
— Não funcionou, tio.
— Sim. Você viu direitinho. Não está preso, certo? O fato de não estar preso quer dizer que…
Taerok estalou a mão rapidamente. De longe, ouviu o suspiro desesperado do eunuco: “Ai, meu Deus!”. Mesmo tendo crescido longe dos pais, não faltava amor. Não fazia muito tempo que começou a ensinar esgrima e arco e flecha para Nanyoung. Todos ao redor de seu jovem sobrinho o estimavam e adoravam.
No entanto….
Depois de observar Nanyoung por alguns dias, Taerok percebeu algo.
Não havia ninguém ao seu redor, exceto os funcionários do palácio. Um funcionário do palácio não podia ser da família. Claro, eles também não podiam ser amigos próximos. Ele estava protegido, mas, ao mesmo tempo, era uma criança sem ninguém por perto.
Taerok, que estava escondendo o fato de ter notado, foi um pouco mais rígido com Nanyoung.
— É assim que você pode esfaquear alguém a qualquer momento, sem nem mesmo conhecer o dono.
A ponta do bastão de madeira tocou a canela de Nanyeong. Taerok não sabia muito sobre as crianças, mas entendia o suficiente para saber que a bexiga poderia estar frouxa. E se ele tivesse feito xixi? Pensou de forma irresponsável, mas, surpreendentemente, a reação de Nanyeong foi indiferente. Tão calmo que, por um instante, parecia que tinha desmaiado.
— Sim. Terei cuidado.
No entanto, contrariando as intenções de Taerok e as preocupações dos que o cercavam, Nanyoung ajustou a pegada na espada. Taerok simplesmente permitiu que o pequeno punho se movesse teimosamente em sua mão. Seu dedo indicador sozinho poderia tê-lo contido, mas desta vez, ele não fez.
— Vou segurar a espada firmemente. Quando algo assustador acontecer, vou recobrar os sentidos para que a espada que me protege não se torne algo assustador.
— …isso mesmo. E se eles atacarem, você tem que matá-los.
Nanyoung não respondeu ao comentário casual de Taerok. Apesar de sua atitude gentil, ele era teimoso. Era exatamente igual ao pai. Como prova, Nanyoung girou cuidadosamente a espada. A lâmina desceu. Taerok estalou a língua e brandiu a espada de volta.
— Você acha que vai voltar a si depois de levar um corte no rosto?
A voz extremamente baixa e pesada não alcançou os ouvidos distantes das servas do palácio e de Saon. Apenas seu sobrinho ouviu. Nanyoung tremeu de medo ao ouvir a única palavra do seu tio, muito mais do que a rara repreensão que recebeu ao chamá-lo pelo nome, “Lee Nanyoung”. Uma única palavra, sem tom ou ênfase, que continha muito peso.
Nanyoung, que se sentia cansado, agarrou a corda que Taerok oferecia. Só então Taerok deu um passo para trás.
— Não espero muito de você, sobrinho. De qualquer forma, vai ser difícil se acostumar com essa espada de madeira por um tempo, então não solte a bainha durante os dez golpes.
— Dez golpes eu consigo!
Nanyoung gritou animadamente, com o corpo tremendo.
Mas ninguém presente acreditava que Nanyoung conseguiria. Ela brandiu a espada para baixo. Saon estalou a língua: “Tsk tsk”. Ele já estava cambaleando após o terceiro golpe. A esgrima era algo que só fazia o treinamento valer a pena se as palmas das mãos estivessem calejadas. Nanyoung ainda tinha um longo caminho a percorrer.
Aos olhos de Taerok, Nanyoung não era uma criança tola. É claro que, para os outros, ele era jovem o suficiente para fazer birra e reclamar. Mas a razão pela qual ele está agindo assim é porque está sendo cauteloso. Ele não quer ser odiado? Não. Por que ele deveria ser odiado se nunca experimentou o ódio?
— Haa….
Taerok esfregou o rosto enquanto observava a espada de madeira balançando horizontalmente, diagonalmente e em curvas.
Mesmo enquanto se esforçava ao máximo, Nanyeong continuava a lançar olhares furtivos para Taerok. Como um cachorrinho observando para ver se o dono ia embora.
Ele se sentia sozinho. Desejava ter alguém ao lado, mesmo que fosse um tio assustador e desconhecido.
‘Que coração mais cansado.’
(N/T: “가장 피곤한 마음이군.” transmite a ideia de um sentimento profundo de fadiga emocional ou exaustão interna, não apenas cansaço físico. Taerok está refletindo sobre o estado emocional de Nanyeong — a solidão, a frustração e o esforço que ele sente — e comenta mentalmente que o coração dele (ou o sentimento dele) está extremamente cansado.)
Além disso, era ainda mais cansativo que ele não fizesse exigências diretas.
Taerok revirou os olhos levemente e soltou um longo suspiro. Oito vezes. Esse era o máximo que Nanyeong conseguira balançar a espada de madeira de uma só vez. Finalmente, Nanyeong começou a soluçar. Mesmo com a ponta da espada inclinada como o pôr do sol, ele não queria largar; seus braços se esforçaram com piedade.
— …baixe isso, sobrinho.
Ao ouvir, Nanyeong olhou novamente para Taerok.
— Está decepcionado…?
Cinco anos… ainda muito jovem. Muito jovem para falar em decepção. Nanyeong cresceu envolto em um mundo muito suave. Quem estava ao seu redor sempre se preocupava, pensando se ele morreria este ano ou não. Nanyeong sabia disso e, às vezes, essa preocupação parecia mais uma expectativa de que talvez ele morresse logo.
Talvez a expectativa estivesse certa. Talvez Nanyeong tivesse penetrado nos verdadeiros sentimentos das pessoas, que nem mesmo elas conheciam. Pensando que seria melhor para terminar logo com a dor, era natural que ele sentisse isso como uma possibilidade para uma vida melhor. Assim, Nanyeong era muito solitário em seu mundo aconchegante.
Quando Taerok assentiu, Nanyeong deixou cair a espada. Taerok, prestes a repreendê-lo pelo risco de danificar a lâmina, acabou olhando para o seu rosto, molhado de suor e lágrimas.
— Ah, pequeno mestre.
O eunuco correu em desespero tropeçando. Ele pegou Nanyeong no colo e envolveu sua mão com um pano encharcado em chá branco. Enquanto o eunuco falava em tom suave, Nanyeong virou a cabeça e olhou para Taerok. Em seu olhar havia um misto de: “Eu me esforcei, mas ainda estou chateado.”
Mesmo chateado, ele não desistiria. Taerok deu um leve sorriso – a primeira vez que sorriu para Nanyeong sem ironia.
O sorriso logo desapareceu. Taerok falou com eunuco que consolava Nanyeong:
— Se você fizer todos os caprichos dele, nunca vai chegar o dia que o pequeno mestre vai conseguir empunhar uma espada.
— Mas ele ainda é muito jovem, não é…
— Quando eu tinha essa idade, já manejava a espada de verdade.
‘Porque você é você.’ Eunuco murmurou para si mesmo.
O eunuco sabia que Taerok, desde o nascimento, cresceu mais rápido e maior que seus irmãos de sangue e meio-irmãos, treinou artes marciais mais cedo que qualquer outro e, por isso, saiu cedo do palácio. Ele também percebeu que Taerok era frio, calculista e cruel. Num lugar onde a rapidez de percepção era essencial para sobreviver, deixar que um pequeno mestre doce e amado fosse entregue a um tio assim parecia perigoso.
— Sobrinho, até quando vai continuar descansando? Ou posso ir embora do palácio?
— Ah, não!
Nanyeong, soluçando, se levantou abruptamente do colo do eunuco, seu verdadeiro aliado, e disse:
— Vou tentar de novo!
— Não, se estiver cansado, não precisa. Há muita gente para cuidar de você, não é?
Taerok, impaciente, tentou persuadi-lo de maneira suave. Mas para Nanyeong, aquilo soava mais como provocação do que gentilmente. E, de fato, não estava totalmente errado. Nanyeong era muito esperto.
— Quero ser como você, tio!
— Hahaha…
Saon conteve a risada que quase escapou. As servas lançaram olhares rígidos para ele. Taerok, percebendo a reação de Nanyeong, soltou um longo suspiro. A resposta de Nanyeong a seus planos deixou suas bochechas lentamente coradas.
— …então você vai ter que se esforçar muito, sobrinho.
Taerok pressionou a cabeça de Nanyeong com força. A mão rude, difícil de chamar de aço, passou pelo cabelo cuidadosamente trançado, que se levantou em fios rebeldes. Nanyeong, percebendo que estava sendo provocado, cobriu o topo da cabeça com as mãos, mordendo os lábios sem saber o que fazer.
Alguns dias após a audaciosa declaração de que queria ser igual ao tio, Taerok estava no quarto de Nanyeong, não no campo de treinamento.
Ele dispensou os servos, dizendo que iria para os aposentos Nanyeong.
Três dias atrás, ele ficou sabendo que Nanyeong estava doente. O interesse pelo estado dele surgiu naquela tarde. Naquela manhã, sem nada para fazer, Taerok se levantou preguiçosamente, pegou seu café da manhã sem trocar a roupa de dormir e se perguntou:
— Sem notícia do palácio?
Não havia. Taerok pensou em passar o dia como um vagabundo nas ruas, mas se levantou. Sua visita foi, portanto, um ato impulsivo.
Ao abrir a porta, sentiu o cheiro doce do leite. Crianças exalam esse cheiro de suor misturado com leite. Pela primeira vez, Taerok percebeu. Sentiu a brisa roçando no seu rosto, trazendo calor misturado com frescor. Olhou para a janela, entreaberta, e pensou que suar era natural quando se está com febre.
Era outono, e o vento ainda estava frio. Depois de ponderar por um momento, Taerok deixou a janela aberta e se sentou. Os eunucos e as servas, aos seus olhos, cuidavam de Nanyeong de forma exagerada. Não seria possível que tivessem aberto a janela para prejudicá-lo. Para alguém como Taerok, que raramente ficava doente, só restava confiar que eles sabiam mais do que ele.
— ……
Embora pudesse chorar e reclamar, Nanyeong estava comportado. Talvez estivesse doente demais para gastar energia com birras, mas Taerok considerou digno que estivesse dormindo tão pacientemente.
— Vou valorizar isso, sobrinho.
Taerok levantou um joelho e apoiou o braço de forma relaxada. O pequeno respirava pesadamente, talvez estivesse com o nariz entupido.
— ……
Talvez sua visita fosse desnecessária. Vindo por tédio, ainda se sentia entediado diante de um doente. Provavelmente por ter dormido demais.
Taerok desviou o olhar do sobrinho e começou a observar o quarto. Percebeu que havia cuidado em cada detalhe: carpas esculpidas em diversas posições, simbolizando longevidade e saúde.
— Essas carpas devem ser maiores que ele.
Taerok murmurou e riu sozinho. ‘Essas’ eram, claro, Nanyeong.
Também havia livros empilhados. Para uma criança, havia obras de alto nível. Taerok folheou rapidamente e logo se entediou, e se levantou. Precisava sair, talvez caçar. Estava cansado de atuar como professor improvisado para uma criança, e mesmo isso o deixava irritado.
Quando se virou para sair, Nanyeong, sempre quieto, se remexeu e soltou um gemido, misturado com pequenos choros. Taerok franziu a testa e abriu a porta, mas no corredor só havia o cheiro fresco do pinheiro, ninguém à vista. Ele havia chegado cedo demais.
— Merda.
Taerok estalou a língua. Ouviu um resmungo, e logo ouviu movimento distante, mas o choro de Nanyeong foi mais rápido. Ouvindo o soluço, ele franziu a testa e voltou ao quarto.
— Sobrinho, onde dói?
Uma pergunta cruel para uma criança. Como poderia ele explicar onde dói enquanto soluçava? Naturalmente, Nanyeong não respondeu. Talvez nem tenha entendido direito.
— Diga onde dói.
Taerok se curvou novamente. Exalava cheiro de floresta no inverno, e Nanyeong, em sua febre ardente, abriu levemente os olhos, atraído pelo aroma.
À sua frente, um homem grande e robusto. Diferente do rei, Taerok parecia… mais cruel. Nanyeong esqueceu que ele era seu tio, chamando-o de “Grão-Príncipe” enquanto segurava seus dedos.
— Minha cabeça dói muito… faça eu melhorar…
Ao ouvir o pedido choroso, Taerok ficou um pouco surpreso.
‘Grão-Príncipe?’
— Não, é tio.
— Grão-Príncipe.
— Meu querido sobrinho é bastante teimoso, certo?
Taerok stalou a língua e apoiou a cabeça quente e pequena de Nanyeong em seu joelho, massageando. O cabelo solto se espalhou, intensificando o cheiro de leite, que não agradava Taerok. Ele preferia o aroma doce e ligeiramente sensual da orquídea. Nanyeong era completamente seu oposto: não só pela idade, mas talvez também pela personalidade.
Enquanto Taerok segurava Nanyeong, os eunucos entraram, acompanhados de um médico, que discutia o estado da criança sem saber que Taerok estava presente. A surpresa do eunuco veio porque quem cuidava de Nanyeong não era outro senão seu tio, frio e implacável mesmo diante da doença da família.
— Para onde você foi?
O eunuco não esperava ouvir tal repreensão de Taerok. Ele se curvou e respondeu incrédulo. Taerok apenas disse para cuidarem da criança e se levantou. O eunuco ficou ainda mais perplexo.
— Vai… vai embora?
— Claro. O que eu ia fazer aqui, afinal?
A resposta ligeiramente irritada deixou o eunuco sem palavras. Taerok, hábil com arco e espada e de temperamento feroz, realmente não tinha muito a fazer ali.
O médico que aplicava acupuntura perguntou:
— O quê? O que disse, Jovem Mestre?
Taerok se virou.
— Tio… não vá embora.
O eunuco suspirou, preocupado e aflito, mas Taerok, o frio implacável, não demonstrou emoção alguma.
.
.
.
LILITH TRADUZ (@lilithtraduz)












































